O consumidor no centro das decisões da cadeia láctea

O consumidor no centro

Para falar da evolução do mercado de lácteos no Brasil, a Revista + Leite entrevistou Kennya Siqueira, pesquisadora da Embrapa Gado de Leite

Revista +LeiteQuais foram as principais transformações observadas no mercado de lácteos brasileiro nas últimas décadas, tanto do ponto de vista da produção quanto do consumo?

Kennya Siqueira – A principal transformação foi a mudança do protagonismo na cadeia. Há algumas décadas, a oferta era o principal direcionador do mercado. Hoje, é o consumidor quem dita as regras. Com acesso à internet, redes sociais e uma quantidade sem precedentes de informações, ele passou a questionar mais a origem dos alimentos, os processos produtivos e os benefícios associados ao consumo.

Nesse contexto, o leite deixou de ser con-sumido apenas por tradição. O consumidor busca propósito em suas escolhas alimen-tares e passou a valorizar atributos como proteína, saudabilidade, funcionalidade, saciedade e conveniência. Isso impulsionou a diversificação dos produtos lácteos e abriu espaço para categorias que entregam benefícios específicos para diferentes perfis de consumidores.

Revista +Leite Como a evolução da renda, dos hábitos alimentares e do perfil do consumidor impactou o desenvolvimen-to e a diversificação dos produtos lácteos no Brasil?

Kennya Siqueira – A renda continua sendo um dos principais fatores que influenciam o consumo de produtos de origem animal, especialmente em países em desenvolvimento como o Brasil. Nossos estudos mostram que, no Brasil, entre o primeiro e o último estrato de renda, o consumo de lácteos aumenta cerca de 176%. Para alguns produtos, essa diferença é ainda mais expressiva: 703% para manteiga, 529% para leite em pó desnatado e 397% para iogurte.

Mas o consumidor atual não busca apenas consumir mais; ele busca consumir melhor. Há uma crescente disposição a pagar por produtos e atributos que atendam necessidades específicas. Isso explica por que categorias como bebidas lácteas, iogurtes proteicos e produtos funcionais vêm ganhando espaço. Em algumas categorias, como bebidas lácteas, leite em pó e requeijão, a marca mais vendida não é a mais barata, mas sim aquela que entrega confiança, saudabilidade, etc. Já em produtos mais ‘comoditizados’, como leite UHT, creme de leite e leite condensado, o preço exerce maior influência na decisão de compra.

Revista +Leite Ao longo dos últimos anos, quais avanços tecnológicos e industriais mais contribuíram para aumentar a competitividade e a eficiência da cadeia láctea brasileira?

Kennya Siqueira – Na minha opinião, um dos avanços mais relevantes é a valorização do soro de leite. O que antes era tratado principalmente como coproduto tornou-se uma matéria-prima de alto valor agregado, impulsionada pelo desenvolvimento de novas tecnologias de processamento e aproveitamento.

O Brasil desenvolveu uma expertise particularmente interessante no uso do soro em bebidas lácteas, criando uma categoria bastante adaptada às preferências do consumidor nacional. As bebidas lácteas, que por muitos anos estiveram associadas ao público infantil, hoje atendem diferentes faixas etárias e demandas de consumo, com dezenas de marcas, formulações e sabores disponíveis no mercado. Essa capacidade de inovação contribuiu para aumentar a competitividade da indústria e ampliar o portfólio de produtos lácteos oferecidos ao consumidor.

Revista +Leite Quando se compara o setor de lácteos atual com o de 20 ou 30 anos atrás, quais mudanças considera mais significativas e quais tendências deverão moldar o mercado nos próximos anos?

Kennya Siqueira – Há 20 ou 30 anos, o foco estava principalmente em produzir e disponibilizar alimentos. Hoje, o desafio é compreender consumidores cada vez mais exigentes. A popularização da classificação NOVA (originária do Guia Alimentar para a População Brasileira) e das discussões sobre processamento dos alimentos intensificou a busca por produtos percebidos como naturais, nutritivos e alinhados a um estilo de vida saudável.

Acredito que a oportunidade para a cadeia láctea está em comunicar esses diferenciais de forma clara e manter a capacidade de ouvir e responder às necessidades de um consumidor que continuará cada vez mais informado e seletivo.

Kennya Siqueira, pesquisadora da Embrapa Gado de Leite

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