O primo pobre enriqueceu

O primo pobre enriqueceu

O setor de produção de leite e a indústria de laticínios passaram por uma grande evolução no Brasil. Os players desse mercado enfrentaram inúmeros desafios nas últimas décadas, mas conseguiram transformar o cenário. Dentro e fora da porteira, de primo pobre do agronegócio, o leite e seus derivados, em plena ascensão, passaram a ocupar espaço privilegiado nas mesas no         Brasil e no mundo

Por: Erika Ventura e Juçara Pivaro

O tempo passa e nem percebemos o volume de novidades e tecnologias que incorporamos ao nosso cotidiano. O exemplo mais evidente é a evolução digital: da carta ao e-mail, do e-mail ao WhatsApp — e assim caminha a humanidade. As mudanças e inovações que aconteceram no setor de leite e derivados no Brasil também foram notáveis e mudaram os hábitos de consumo. De acordo com Sérgio Luiz Mansim, Químico e Departamento Técnico/Comercial da BV-Bela Vista, durante muito tempo a atividade foi considerada de subsistência e menos estruturada que outras cadeias, como agricultura de grãos e pecuária de corte. Com as exigências do Ministério da Agricultura e o fim do leite de latão, as fazendas se viram obrigadas a se profissionalizar, por exemplo, com a obrigatoriedade de resfriamento, transporte a granel, melhoria de gestão e aplicação de maiores tecnologias.

Essa evolução passa pelo modus operandi das fazendas, pela nutrição dos animais, genética e impactou diretamente os resultados da indústria de laticínios. Atualmente, um ingrediente ganhou enorme protagonismo: a proteína do soro de leite. Antes descartado ou utilizado como complemento na alimentação de suínos e em bebidas lácteas de baixo custo, hoje, o soro transformou-se em ouro para a indústria de alimentos.

Em um primeiro momento, impulsionado por atletas e frequentadores de academias e, mais recentemente, pelo GLP-1 e outras canetas emagrecedoras, o consumo foi ampliado por uma legião de consumidores que passou a utilizar as propriedades nutricionais do soro de leite como com-plemento alimentar durante o processo de emagrecimento.

As demais inovações das últimas décadas também foram expressivas. Além da intro-dução no mercado de diferentes tipos de iogurtes com maior valor agregado e ca-racterísticas funcionais, as áreas de Pesquisa & Desenvolvimento das universidades e das indústrias trouxeram os probióticos, hoje, amplamente utilizados por consu-midores em busca de saúde e bem-estar. “A busca por valor agregado tornou-se vital para escapar da concorrência por preço. As indústrias agregam valor aos seus produtos através de experiências personalizadas, propósitos claros e procuram fidelizar o consumidor. Os fornecedores de ingre-dientes, proteínas e soluções trabalham intensamente para desenvolver ingredien-tes funcionais que tornem os rótulos mais limpos, com soluções mais naturais sem aditivos e conservantes”, ressalta Mansim. No setor de queijos, a evolução foi imensa e incontestável. De um cenário em que o consumidor brasileiro tinha à disposição praticamente apenas queijo prato, muça-rela, requeijão e parmesão, impressiona a quantidade de variedades produzidas atualmente no país, disputando espaço com queijos importados nas gôndolas dos supermercados.

Nós poderíamos finalizar este texto dizen-do que foram muitas as mudanças vividas pelo setor leiteiro nas últimas décadas. Mas isso não seria suficiente para traduzir a dimensão da transformação que ocorreu dentro e fora da porteira.

O que se viu ao longo dos anos foi uma mudança estrutural. O produtor passou a gerir sua propriedade com indicadores e tecnologia. A indústria investiu em automação, qualidade e inovação. Ingredientes antes subaproveitados ganharam valor estratégico. Novos produtos chegaram ao mercado e o consumidor passou a enxergar os lácteos sob uma perspectiva muito mais ampla, ligada à saúde, conveniência e bem-estar.

O leite talvez tenha sido chamado de “pri-mo pobre” do agronegócio durante muito tempo. Mas hoje o setor escreve um novo capítulo de sua história. O copo não está meio cheio ou meio vazio. Ele finalmente transbordou! E, ao que tudo indica, essa evolução está longe de chegar ao fim.•

O leite talvez tenha sido chamado de “primo pobre” do agronegócio durante muito tempo. Mas hoje o setor escreve um novo capítulo de sua história. O copo não está meio cheio ou meio vazio. Ele finalmente transbordou! E, ao que tudo indica, essa evolução está longe de chegar ao fim.

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