O papel da América do Sul no mercado global de lácteos

O papel da América do Sul no mercado global de lácteos

Por: Erika Ventura

A América do Sul ocupa uma posição relevante no cenário internacional da cadeia láctea. Com produção significativa, consumo consolidado e potencial de crescimento, a região reúne condições naturais e produtivas favoráveis. No entanto, desafios estruturais ainda limitam sua presença no comércio global.

Dados do setor indicam que a região produz mais de 80 milhões de toneladas de leite por ano, com destaque para Brasil, Argentina e Uruguai. Apesar disso, apenas parte desse volume chega ao mercado internacional, refletindo um cenário em que o consumo interno ainda absorve a maior parte da produção.Para Andrés Padilla, analista do Rabobank, a América do Sul continua sendo um player relevante no tabuleiro global, embora enfrente limitações estruturais que impactam sua competitividade. “Em termos de produção, os países do Mercosul representam aproximadamente 11% da produção total dos oito maiores produtores e exportadores (União Europeia, Estados Unidos, Nova Zelândia, Austrália, China, Brasil, Argentina e Uruguai), que são os mercados com influência relevante no cenário global. O consumo de leite e derivados é significativo nos países do Mercosul, porém o crescimento limitado da renda per capita nas últimas décadas tem restringido o avanço do consumo potencial. Inclusive, em países como a Argentina, o consumo diminuiu aproximadamente 10% na última década. Culturalmente, o consumo na região poderia se aproximar do observado em países desenvolvidos, superando os atuais 180 kg por habitante e alcançando cerca de 250 kg por habitante. No entanto, o poder de compra limita esse potencial existente na região”, explica Padilla.

Embora compartilhem desafios semelhantes, os países sul-americanos apresentam modelos produtivos distintos, influenciados por fatores como clima, disponibilidade de grãos, estrutura fundiária e custos de produção. Padilla destaca que a cadeia leiteira regional passa por um processo gradual de consolidação. “Pode-se dizer que, em média, a região passa por um processo de consolidação de sua produção primária de leite. Fatores como o custo da mão de obra, o preço da terra, o valor de novilhas/genética e a volatilidade climática têm levado produtores de menor escala e maior custo a migrarem para outras atividades rurais”.
Competitividade internacional

Entre os países da região, Uruguai e Argentina são os que mais conseguem transformar produção em presença internacional. “O Uruguai exporta aproximadamente 70% de sua produção nacional, o que evidencia sua competitividade, resultante de uma necessidade estrutural de direcionar o excedente ao mercado internacional. A Argentina, por sua vez, consegue exportar entre 20% e 25% de sua produção”, enumera Padilla.

Para Valeria Guzmán Hamann, Digital Sales & Content Manager do portal eDairyNews, a América do Sul ocupa hoje uma posição intermediária, mas estratégica, na cadeia global.“A América do Sul ocupa hoje uma posição intermediária, mas estratégica, no mapa global da produção leiteira. Não é um ator dominante, mas também não é marginal. Os sistemas pastorais e o clima favorável conferem competitividade de custos à região, mas isso também é um fator de risco quando essa variável falha, além da volatilidade dos insumos importados”, destaca Valeria. 

Embora seja o maior produtor de leite da América do Sul, o Brasil ainda participa pouco do comércio internacional. A analista observa que o país reúne condições para ampliar sua competitividade, mas enfrenta desafios estruturais importantes. “A cadeia apresenta ineficiências logísticas, altos custos de transporte interno, fragmentação entre produção e indústria e perdas ao longo da cadeia de frio”, detalha Guzmán.

Tendências que moldam o consumo

Padilla reforça que o avanço das exportações brasileiras depende de melhorias na qualidade da matéria-prima e na estrutura industrial. A boa notícia é que o Brasil já demonstrou amplamente sua capacidade de ser um produtor e exportador agrícola altamente eficiente. Em segmentos como açúcar e etanol, celulose, grãos, carnes e suco de laranja, o país está entre os líderes globais em produção e exportação. Esses setores têm enfrentado concorrência direta no mercado internacional há décadas e alcançaram os níveis de eficiência necessários para crescer de forma sustentável no comércio global. O setor lácteo pode seguir esses exemplos e, gradualmente, voltar a se tornar um exportador líquido.

Além das questões produtivas e comerciais, mudanças no comportamento do consumidor também influenciam o futuro da cadeia láctea na região. “A demanda crescente por produtos com alto teor de proteína é, sem dúvida, uma tendência que veio para ficar”, afirma Padilla. Valeria corrobora com a opinião e observa o avanço de segmentos ligados à funcionalidade e à nutrição especializada. “Ganham espaço os produtos enriquecidos com proteínas, probióticos e formulações voltadas para a nutrição especializada, desde idosos até atletas”, aponta a Digital Sales.

A visão da indústria

Na prática, empresas brasileiras já vêm explorando oportunidades de crescimento em mercados da América Latina. É o caso da Mococa, que mantém presença consolidada em diversos países da região.“Atualmente, a América Latina é o principal mercado internacional da Mococa e ocupa uma posição estratégica dentro do plano de crescimento da empresa. Países como Venezuela, Bolívia e Paraguai são especialmente relevantes”, afirma Maurício Paranhos, gerente de Mercado Externo da empresa. Entre os produtos exportados estão mistura láctea condensada, bebida láctea sabor chocolate e, em menor escala, leite condensado tradicional.

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