Garra do sertão sergipano impulsiona a nova erado leite no Brasil

Garra do sertão sergipano impulsiona a nova era do leite no Brasil

Enquanto grande parte da produção leiteira brasileira segue associada às tradicionais
bacias do Sul e Sudeste, Sergipe vem se destacando como um dos casos mais expressivos
de crescimento e modernização do setor. Em apenas dez anos, o estado praticamente
dobrou sua produção diária de leite, passando de cerca de 900 mil litros, em 2014, para
mais de 1,8 milhão de litros em 2024.
O avanço torna-se ainda mais relevante porque ocorreu mesmo com a redução do
número de vacas ordenhadas, que caiu de 230 mil para 203 mil animais no período. Isso
revela um salto importante de produtividade dentro das propriedades rurais, resultado
de investimentos em genética, manejo nutricional, planejamento forrageiro e adoção
de tecnologias adaptadas às condições do semiárido.
Hoje, Sergipe registra a maior produtividade leiteira do Brasil fora da Região Sul e supera
estados tradicionalmente fortes na atividade, como Minas Gerais. Municípios como Poço
Redondo, Porto da Folha e Nossa Senhora da Glória concentram parte importante desse
desempenho e ajudam a consolidar o sertão sergipano como nova referência nacional.
Mesmo enfrentando desafios como estiagens prolongadas, informalidade em parte da
cadeia e necessidade de agregar mais valor à produção, o estado mostra que tradição,
empreendedorismo e garra para arriscar em inovação podem transformar realidades
no campo. O caso sergipano reforça que o futuro do leite brasileiro também passa
pelo Nordeste.
Samuel Oliveira, pesquisador da Embrapa Gado de Leite e palestrante do Seminário
+Negócios, relata um pouco da trajetória de sucesso do setor de leite em Sergipe. Confira
a análise do pesquisador.

Por: Samuel Oliveira, pesquisador Embrapa Gado de Leite

A produção de leite em Sergipe está em franca expansão. Ao observar indicadores de produção, comparando 2014 com2024, é possível constatar uma estabilidade ou até uma redução do número de
vacas que foram ordenhados de 230 mil para 203 mil, mas o que é surpreendente é o aumento da produção de leite, o estado saltou de 900 mil litros/dia em 2014, para mais de 1.800.000 litros/dia, em 2024. A produção de leite em Sergipe praticamente dobrou nesse período. Como o número de animais ordenhados diminuiu, significa que a produtividade por vaca aumentou bastante.
A produtividade em Sergipe saltou de 1.500 litros por vaca no ano de 2014, valor muito próximo da média brasileira naquele período e, em 2024, a produção daquele estado atingiu 3.300 litros/dia
por vaca, que é mais que mil litros acima a média brasileira. Sergipe tem a maior produtividade es
tadual de leite no Brasil, fora da região Sul do Brasil e até maior do que Minas Gerais, ou seja, Sergipe é um estado que tem uma revolução na produção de leite, combinada com uma revolução tecnológica, que está levando a um aumento acelerado da produtividade.

A produção leiteira de Sergipe concentra se no norte do estado, no Sertão. Isso acontece porque o local já tem uma tradição leiteira. O leite tem histórico importante no local, desde a produção de queijo coalho, da alimentação para a suinocultura, tornando-se a alternativa fundamental para viabilizar a economia nessas zonas rurais. As condições climáticas também favorecem a produção leiteira.
O sertão sergipano, com suas noites secas e frescas, propicia um ambiente de conforto para os animais, ainda que o clima seco represente um desafio adicional na produção de alimentos. A proximidade
do mercado consumidor e uma política ativa de inovação tecnológica, como melhoria da genética do rebanho e um manejo mais adequado da alimentação também explicam o sucesso sergipano. Os
maiores produtores do estado são Poço Redondo, com mais de 300 mil litros/dia;
Porto da Folha, com 270 mil litros/dia e Nossa Senhora da Glória que está próximo
aos 200 litros/dia,

Vale destacar que Poço Redondo e Porto da Folha já têm produtividade acima de 4 500 litros por vaca por ano, valor muito acima da média brasileira e próximo de países muito competitivos, como é o caso da Nova Zelândia.
Apesar dessas vantagens, Sergipe apresenta vários desafios. A primeira questão ainda é a produtividade, embora esteja no patamar elevado, as regiões que se consolidam como competitivas na produção de leite ainda exigem um patamar tecnológico um pouco acima do que eles têm lá, embora Sergipe esteja evoluindo muito rapidamente nesse local. Outro desafio importante é a escala de produção na propriedade.
Como a produção de leite é característica da produção da agricultura familiar em Sergipe, tem uma escala que é ainda pequena, quando se pensa em na produção de leite para outras regiões que são mais
competitivas. Por exemplo, na Argentina, em média, uma fazenda produz 3 mil litros/dia. Em Sergipe, esse valor é bem inferior.
Outro desafio é agregar valor à produção. A região é tradicional na produção de produtos com valor agregado, como queijo coalho, mas essa mesma produção precisaria ser institucionalizada e incorporada nos processos legais produtivos. Hoje, existe ainda uma série de restrições, regulamentações e a operação dos laticínios e não alcançam a produção do queijo coalho em escala industrial padronizada no estado.
Geralmente, essa produção ocorre com queijarias. É a produção informal, fora do mercado fiscalizado e inspecionado. Outro desafio importante é, exatamente, o grande número de produtores e de plantas produtoras de derivados de leite que são ainda informais.

O arcabouço institucional, a legislação, não consegue acompanhar o que acontece na
produção de leite e derivados no estado de Sergipe.

Seca e tecnologia

Como já mencionado, o clima daquela região do Nordeste é bem peculiar, embora
seja sertão, com tardes muito quentes, écaracterístico que, na maior parte do ano,
haja uma menor umidade relativa do ar.
Isso alinhado à brisa marítima, que sempre sopra naquela região na parte da tarde,
gera, muitas vezes, noites frescas com baixa umidade relativa, ou seja, uma ambiência que favorece a criação de animais com maior produtividade. Porém, geralmente, o período de seca é severo na região, o que ocorre por volta de seis, até oito meses, o que impacta a produção leiteira no estado.
Esse é um dos fatores que explicam também o desenvolvimento. O desafio climático forte que existe naquela região obriga as pessoas que se dedicam à atividade a ter um planejamento, inclusive, na adoção de tecnologias, porque com região, não é possível alimentar os animais por mais de três, quatro meses, até cinco meses na pastagem. A grande parte do ano os animais são criados estabulados com suplementação alimentar, sendo obrigatório por causa do regime climático característico de forte seca.

De certa maneira, embora o clima seja um desafio, acaba sendo um impulsionador à adoção de tecnologia, porque sem ela seria impossível a produção de leite na região. Os animais iriam morrer de fome, como já aconteceu algumas vezes durante o período de seca. O produtor sergipano tem investido em tecnologia, os números atestam isso e nesse aumento de produtividade que está ocorrendo, o que ais chama atenção. hoje é, exatamente, a consequência de todo esse manejo reprodutivo e manejo
de alimentação. Atualmente, tanto o uso da palma quanto o uso da silagem de milho são muito importantes, são avanços que garantem esse aumento de produtividade, sem falar também na melhoria
genética dos animais, que são muito já melhorados para serem especializados na produção leiteira.
A produção de leite em Sergipe é feita pela população sertaneja, em sua maioria, produtores familiares, que estão mostrando para o Nordeste e para o Brasil que é possível pensar em desenvolvimento sustentável no Nordeste. Mesmo com todas as situações desafiadoras, existe a possibilidade de um
nordestino, um sertanejo ser o protagonista de seu próprio desenvolvimento.
Várias iniciativas aconteceram para agregar valor ao leite, os laticínios que surgiram em Sergipe, muitos deles, eram pequenos produtores, ou pequenos empresários. São exemplos, o Natville, um dos maiores do estado, a Natulac, agora vendida para a Piracanjuba.

Futuro da produção leiteira

O futuro da produção leiteira no Brasil depende dessas regiões que estão investindo em inovação tecnológica como o que ocorre em Sergipe. Se o estado continuar nessa trajetória, a tendência é que ele ocupe um espaço ainda maior na produção leiteira no Brasil, porque é um estado que tem vocação, tradição e empreendedores investindo no campo.
Todo o entorno de Sergipe tem um mercado consumidor importante, inclusive, de capitais de outros estados do Nordeste que continuarão a ser motivo de investimentos em aumento de produtividade.•



Compartilhe

Explore nossos conteúdos