O setor de embalagens no Brasil é bastante ativo em atualização tecnológica, design criativo e, principalmente, no atendimento das demandas para incorporar sustentabilidade ao setor, seja no uso de materiais, na praticidade de reciclagem, entre outros aspectos que envolvem os desenvolvimentos de embalagens. Confira em entrevista com Luciana Pellegrino, presidente executiva da ABRE – Associação Brasileira de Embalagens, as tendências, ações e desafios que o setor enfrenta
Por: Juçara Pivaro
+Leite: No setor de embalagens em geral, quais são as principais tendências?
Luciana Pellegrino – Olhando para a indústria de embalagens em geral, as tendências vão desde maior eficiência produtiva embarcando mais tecnologia, digitalização e até mesmo AI, maior circularidade das embalagens e uso de matérias-primas de fontes renováveis, além de aumento da rastreabilidade para visualização do ciclo de vida do produto, até novas tecnologias que permitam diferenciar cada marca, fortalecendo a conexão do consumidor, seja a partir do design da embalagem, seja a partir de um QR code interativo, focados na melhor experiência do consumidor e na praticidade de uso.
+Leite: É possível perceber que o setor trabalha ativamente para incorporar mais sustentabilidade às embalagens. Nesse aspecto, quais as soluções que considera mais inovadoras para poupar o meio ambiente?
Luciana Pellegrino – Soluções inovadoras no momento incluem a ênfase no uso de materiais de fonte renovável e, também, na circularidade, promovendo a reciclagem eficaz das embalagens. Isso envolve o desenvolvimento de embalagens adequadas à cadeia de reciclagem do Brasil, soluções que incentivem a coleta seletiva e, principalmente, educação e engajamento dos consumidores, e podemos dizer que avançamos muito no quesito tecnológico, mas nem tanto no social. Neste aspecto, a ABRE mantém um programa chamado Lupinha (Lupinha.org.br), que se refere a um QRCode impresso na embalagem que leva o consumidor para o mundo digital do produto, onde ele pode entender tanto como descartar para reciclagem, mas, em especial, conhecer mais sobre a marca, as características do produto e forma de consumo, tanto em texto pelo celular como em voz para pessoas cegas ou com baixa visão.
+Leite: A economia circular tem ganhado espaço aqui no Brasil? Quais são os maiores entraves para que esse processo prospere no país?
Luciana Pellegrino – A cadeia de reciclagem no Brasil vem crescendo e se desenvolvendo há muitos anos e, atualmente, apesar dos grandes desafios que ainda existem, ela já é uma cadeia bem estruturada. O conceito de economia circular vem ganhando espaço entre empresas, mas precisa chegar à sociedade no que tange a produtos de consumo – dado que em outros setores, como moda por exemplo, já está melhor difundido. Cabe ressaltar que a cadeia de reciclagem enfrenta entraves como a falta de infraestrutura adequada para coleta e reciclagem em algumas regiões do país, dificuldades na logística reversa pela extensão territorial, custos elevados dado que o material reciclado é bi-tributado, e a necessidade de mudança de cultura sobre o tema, em especial no papel de cada cidadão no descarte para a reciclagem. As cooperativas de catadores ainda recebem muito rejeito, o que impacta negativamente a sua atuação.
+Leite: Há pesquisas que apontem se tem crescido o número de consumidores que priorizam comprar produtos que preservem o meio ambiente?
Luciana Pellegrino -Embora haja uma percepção de aumento na conscientização ambiental, a maior parte dos consumidores não demonstra disposição e não tem poder aquisitivo para pagar mais por requisitos de sustentabilidade. Segundo o Observatório ABRE da Embalagem, ele espera que a sustentabilidade seja inerente a todos os produtos. Muitos valorizam marcas e produtos sustentáveis, mas outros quesitos também pesam como qualidade, reputação e preço competitivo. Em situação de preços equiparados, as marcas com boa reputação em responsabilidade se destacam. Com isso, a sustentabilidade não deve ser um diferencial com impacto no preço, mas sim uma entrega inerente do produto e sua embalagem.
+Leite: Quais são as principais tendências em embalagens para o setor de lácteos?
Luciana Pellegrino – A cadeia do lácteos no Brasil é uma cadeia madura e conta com um portfólio bem desenvolvido no que se refere às embalagens. A partir disso, as principais tendências dividem-se em duas esferas: eficiência e produtividade operacional e logística e fortalecimento da conexão com os consumidores.
+Leite: Quais os desafios das embalagens para lácteos?
Luciana Pellegrino – Desafios incluem garantir a preservação do produto, evitar contaminação, manter a praticidade de uso, além de alinhar inovação com custos acessíveis, especialmente considerando a necessidade de proteção contra luz, oxigênio e variações de temperatura. O avanço das tecnologias de embalagens vem proporcionando muitas possibilidades de inovação e agregação de valor, como os produtos que não precisam ser refrigerados, ou que aguentam até 5 horas fora da geladeira, produtos porcionados para consumo em movimento, embalagens que viabilizam o preparo e consumo do produto em seu próprio recipiente, entre outras.
+Leite: Quais são as novas tecnologias utilizadas em embalagens para lácteos?
Luciana Pellegrino – Tecnologias emergentes envolvem embalagens com barreiras avançadas, sistemas de vazamento zero, etiquetas inteligentes com QR codes para rastreamento e informações adicionais, além de materiais que aumentam a vida útil dos produtos.
+Leite: Devemos esperar muitas mudanças no setor de embalagens? Em caso positivo, quais seriam essas mudanças?
Luciana Pellegrino – Podemos esperar maior automação na produção, aprimoramento em sustentabilidade, seja pelo material, pela rotulagem focada em educação, seja num repensar na estrutura e performance da embalagem ao longo da cadeia de distribuição e consumo, seja a integração digital, além de embalagens mais inteligentes. Mas uma grande mudança em curso é a reunião de diferentes atores da cadeia produtiva para a discussão e desenvolvimento conjunto de melhores soluções. E nesse movimento, o marketing passa a se sentar à mesa entendendo que a embalagem não é um insumo e sim o veículo estratégico da marca, que tangibiliza a experiência do consumidor.
+Leite: Devem vir conceitos novos para desenvolvimentos de embalagens?
Luciana Pellegrino – Sempre! Porque a indústria de embalagens, por um lado, é calcada em tecnologia, que está sempre avançando e, por outro, é uma indústria focada em atender às mudanças das dinâmicas de comportamento e consumo da sociedade, ou mesmo as transformações do varejo. E a acessibilidade ganha espaço nessa pauta, favorecida pela digitalização, como é o caso do Lupinha. Indo mais além, a funcionalidade continuará guinado novos desenvolvimentos, com o objetivo de maior segurança, praticidade, conveniência e sustentabilidade na cadeia de lácteos.
+Leite: Há alguma regulamentação nova para embalagens de alimentos?
Luciana Pellegrino – As regulamentações estão sempre em atualização para garantir maior segurança e sustentabilidade, desde a Política Nacional de Resíduos Sólidos, que institui a responsabilidade às marcas pela logística reversa das embalagens de seus produtos, ou mesmo a nova rotulagem nutricional que logo será ampliada exigindo novas informações impressas em fundo branco. Recomenda-se acompanhar as normas da Anvisa e de outras entidades reguladoras específicas. Por ser uma agenda dinâmica, hoje, damos na ABRE o apoio regulatório para as empresas associadas.

