2025 – um ano promissor que afirma o protagonismo do leite

2025 - um ano promissor que afirma o protagonismo do leite

As análises do setor de leite indicam um período de contrastes para produtores e indústrias e com grandes desafios pela frente

Por: Juçara Pivaro

O ano de 2025 tem sido de contrastes para o setor lácteo brasileiro. De um lado, os preços pagos ao produtor recuaram; de outro, as margens mantiveram-se favoráveis graças ao equilíbrio entre custo de alimentação e receita, como aponta o Indicador RMCA (Receita Menos Custo da Alimentação), da MilkPoint Ventures. “Apesar das atuais quedas de preços de leite, o ano ao produtor foi de margens favoráveis”, avalia o Valter Galan, sócio do Milkpoint Ventures, que informou a Revista + Leite sobre outros aspectos da atual conjuntura do leite.

O mesmo movimento foi observado na indústria. Enquanto os fabricantes de leite em pó registraram resultados positivos, os produtores de queijos, especialmente de muçarela — um dos principais commodities do setor — enfrentaram dificuldades com estoques elevados e preços em baixa. “As margens foram interessantes para os leites em pó, mas a situação dos queijos tem sido mais complexa, resume Galan.

Transformações regionais

Nas últimas décadas, o mapa da produção de leite no Brasil vem se redesenhando. O Sul do país segue na liderança, impulsionado por polos organizados e cooperativas estruturadas. A região dos Campos Gerais, no Paraná — onde atuam cooperativas como Castrolanda, Frísia e Capal —, é um exemplo de sucesso: cresce cerca de 7% ao ano e se consolida como uma das áreas mais dinâmicas da cadeia produtiva.

Mas o avanço não se limita ao Sul. Segundo Galan, o Nordeste desponta como uma nova fronteira leiteira, especialmente no chamado cluster do Agreste, que abrange Pernambuco, Alagoas e Sergipe, além do Ceará. “O Nordeste tem apresentado um excelente crescimento, ainda que continue importando derivados de outras regiões”, observa o especialista.

Perspectivas e concentração

Quando se fala no futuro do setor, não há consenso sobre mudanças radicais no mapa da produção, mas há indicações de onde o crescimento tende a se concentrar. As projeções apontam para polos já consolidados, como o Nordeste gaúcho, o Oeste de Santa Catarina, o Sudoeste e os Campos Gerais do Paraná, além do Triângulo Mineiro, Sul de Minas, região central de Goiás e as novas áreas produtivas do Nordeste. São regiões que reúnem clima favorável, mão de obra especializada e proximidade das principais indústrias processadoras.

A tendência de verticalização e de formação de cooperativas locais tem aberto espaço para pequenas agroindústrias, especialmente em Minas Gerais. “Para alguns produtores, a agroindústria é uma oportunidade real de expansão, mas não é uma solução que sirva para todos”, pondera Galan. A produção artesanal e o foco em nichos de mercado — como queijos finos, produtos com identidade regional e derivados com apelo de origem — têm se mostrado caminhos viáveis para quem busca diferenciação.

Em sentido oposto, o setor também vive um movimento de consolidação. “Há uma tendência de concentração industrial, mas ela deve ocorrer de forma lenta, já que o país ainda tem quase duas mil indústrias de laticínios”, explica Galan. O processo, segundo ele, tende a ser impulsionado por alianças estratégicas e ganhos de escala.

Novos hábitos e inovação contida

No consumo, as preferências do público indicam mudanças claras. Produtos com apelo de saudabilidade e alto teor de proteína continuam em ascensão, e a proteína do soro de leite — o popular whey protein — mantém sua posição de destaque. “Os produtos elaborados com whey vêm crescendo de forma acelerada”, destaca o Galan.

Além das bebidas proteicas, os produtos frescos também conquistam espaço. Leites líquidos, iogurtes e queijos são cada vez mais valorizados por sua praticidade e vínculo com o consumo diário. Galan lembra, porém, que o consumo de queijos no Brasil ainda é baixo em relação a outros países, o que abre um enorme potencial de expansão.

Por outro lado, a inovação ainda encontra barreiras no ambiente regulatório. “Muitas indústrias desenvolvem novos produtos com base em pesquisas de fornecedores de ingredientes, mas o marco regulatório brasileiro ainda é bastante restritivo”, avalia Galan. A burocracia, segundo ele, retarda a chegada de novos produtos e tecnologias ao mercado.

O desafio da exportação

Apesar da diversidade produtiva e do potencial para crescer, o Brasil ainda está distante de se tornar um exportador expressivo de lácteos. “Há muitos pontos a trabalhar: custo de produção na fazenda, aumento dos sólidos úteis no leite, logística, custos de conversão nas fábricas e até o tempo de prateleira dos produtos”, elenca o Galan, que cita ainda gargalos como o alto custo de transporte até os portos e a complexidade do acesso a mercados externos.

Mesmo com tantos desafios, o tom é de otimismo. “O Brasil tem vocação para ser protagonista no setor lácteo global, mas precisa de políticas públicas, planejamento e investimentos consistentes em eficiência e qualidade”, conclui.

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